Pular para o conteúdo principal

E os 15 invadiram os 30 da Paulinha...

E lá estava Paulinha, após mais uma noite de treino na academia... Saiu um pouco mais cedo da aula, e foi correndo ao vestiário tomar aquele banho e dar aquele trato no "visu"... Claudia esperou o fim e encontrou a amiga se maquiando toda no espelho... Daí a pouco, Paulinha limpa tudo, troca a blusa, troca a calça, os brincos e começa a maquiagem tudo de novo... E nada fala, está muda, apenas olha com atenção a sua própria imagem no espelho...
Claudia, com a delicadeza de mulher, aguarda pacientemente que a amiga termine de passar o delineador pela quarta vez... E a chacoalha impacientemente para tirá-la daquele transe maldito e finalmente saber o que estava acontecendo com a amiga tão segura de si e centrada...
Sabe o que é, Clau... Lembra daquela vez que te contei daquele meu amor da adolescência que me achou na internet? Então menina, ele me chamou pra sair hoje... E eu tenho que estar linda... E não tenho nada pra vestir, nem uma maquiagem decente pra combinar com o que eu tenho aqui...
Mas ele não estava noivo?
Sim, até dois meses atrás... Ele pegou a noiva com outro... Pode isso? Com um carinha uns dez anos mais novo...
Bom, nesse caso, deixa eu te ajudar aqui... Ó, coloca essa saia aqui e essa blusa que tem o decote perfeito... E essa maquiagem aqui é perfeita! Vem, te ajudo!
...
Viu, tá linda... Ninguém vai resistir a você nessa noite... Agora vai, que você vai se atrasar... Se pegar trânsito na 23 já viu, né? Boa sorte, me liga amanhã pra contar os detalhes...
Olha como eu estou tremendo... Parece que eu tenho 15 anos de novo... Que droga!

Era um barzinho na Paulista, e lá estava ele... Ela reconheceria aquele jeito de brincar com o copo de cerveja em qualquer lugar no mundo... Ele levantou o olhar e ela estava ali... Abriu aquele sorriso que amolecia seus joelhos e fazia estremecer seu corpo a ponto de fazê-la procurar um ponto para se equilibrar... Claro que ela culpou o salto alto e fino quando percebeu que havia se apoiado nele mesmo... Que mico!
Fernando tinha vontade de rever a melhor amiga e namorada da adolescência desde quando seus perfis se cruzaram nas redes sociais... Ela continuava linda... Mas ele estava noivo, e a noiva era uma ciumenta doente, daquelas que transformam a vida da própria cunhada um inferno se ligar pro irmão no sábado de madrugada pra chorar as mágoas do namoro recém-terminado... E ele não queria correr esse risco com ela... Devia ter desconfiado que por trás de tanto ciúme havia alguma coisa escondida... E quando descobriu, tinha ao menos de fingir que não estava feliz... O que ela poderia pensar dele se esse convite viesse no dia seguinte de todos os amigos assistirem de camarote a briga virtual que acontecera, só porque ele não atendia mais os telefones da ex-noiva tentando explicar o que estava explícito... E ele suspeitava que Paulinha havia sido umas das muitas  pessoas que viram aquele momento de descontrole emocional... E estava certo...

Sentaram-se na mesa, ele chamou o garçom e pediu uma garrafa da cerveja preferida dela...
Não acredito que você ainda se lembra...
Eu nunca esqueci...
Ela estava sem palavras... Há muitos anos isso não acontecia...
Me sinto com 15 anos, fazendo algo escondido dos meus pais...
É, eu também... Um brinde aos 15 anos!
E aos 30 também...
Duas horas se passaram, só fatos corriqueiros, conversas bestas, sobre amores que não deram certo... E que deram também... Aventuras da vida, trabalhos, carreiras, faculdade...
E então, as duas mãos se tocaram sem querer, na hora de servir a cerveja... Em menos de minutos, os lábios também se tocaram, os braços se entrelaçaram, os corpos se juntaram... E quem passasse por aquela mesa no canto mais escuro do bar, iluminada apenas pelas luzes das velas poderia ver duas almas se reencontrando após dez anos de ausência...
Pediram a conta sem dizer palavra um com o outro, nem precisavam dizer... Conversavam pelo olhar, como na infância e na adolescência... Saíram do bar de mãos dadas, aguardaram seus carros juntos, Fernando entrou no seu carro, Paulinha também entrou no seu...
E seguiram juntos para o mesmo destino... A rua em que cresceram, em que se apaixonaram a primeira vez... E qual a surpresa dela quando entraram na mesma garagem onde toda a história começou... Fernando havia comprado novamente a casa de seus pais e havia se mudado para lá há alguns dias... E qual não foi a surpresa dele ao saber que ela, sem querer, havia feito a mesma coisa, e estava com a mudança marcada para a semana seguinte...

Rindo, eles entraram abraçados na casa ainda escura... Bateram a porta e se beijaram loucamente...
Naquela noite, nenhum vizinho da rua dormiu...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Confissões de Adolescente...

Eu lembro como se fosse hoje... Eu acordava mau humorada todos os dias (odeio acordar cedo até hoje)... Mas meu mau humor durava apenas cinco minutinhos... Era o tempo que eu demorava pra me lembrar que ia te encontrar... E ia correndo escolher a melhor roupa... E o batom que combinava com a roupa escolhida... E xingava não poder usar minhas melhores roupas na escola...  E quando o relógio começava a mostrar que estava perto da hora do recreio, eu reforçava o batom... E quando batia o sinal, pegava minhas amigas pelas mãos pra não pegar fila na lanchonete e ficar mais tempo vendo você jogar...  E quando o jogo terminava, você sempre tinha um sorriso no rosto que quase me hipnotizava... E aí você vinha, me abraçava e me dava aquele beijinho carinhoso no rosto... E a droga daquele relógio começava a voar e logo tocava aquele sinal chato me dizendo que era hora de me separar de você... E a gente ás vezes enrolava até o último segundo conversando sobre coisas tão ban...

Reencontro...

E lá estava ela, como todos os dias... O fone de ouvido sempre no último volume, totalmente alheia ao mundo lá fora... Naqueles momentos ela não via ninguém, não ouvia ninguém... Apenas gostava de ver o mundo passando, em paralelo ás histórias na sua cabeça... Era divertido comparar o atual com o velho... Ela lembrava do que havia vivido ao som de cada música, os amores vividos, os erros cometidos... E não era difícil vê-la segurando uma lágrima de saudades, ou rindo sozinha dentro de um ônibus... E se as pessoas a olhavam estranho, tudo bem... Ela não enxergava mesmo... Para que se importar? E foi assim, num dia de sol, que ele a encontrou... Ela nem sequer percebeu a presença dele e estava sorrindo um sorriso misterioso... E ele nem sabia que naquele exato momento, ela ouvia uma música que relatava a época deles... Ele não sabia se podia se aproximar, se ela lembraria dele, e se por acaso lembrasse, se ela o reconheceria depois de tantos anos sem ao menos um encontro casual... ...

Bagunça Mental

Controle de videogame. Remédio. Acetona. Tablet. Caixa de som bluetooth desligada (e provavelmente descarregada). Canetas sem tinta. Fone de ouvido do celular. O celular. Telefone. Cabo de dados. Controles remotos da TV e TV a cabo. Algodão. Telefone. Marcador de livro. Régua com calculadora (usada há dois dias atrás e ainda não guardada). Carteira. Bloco de papel para anotações. Pilhas usadas. Porta-canetas lotado de canetas e lápis. Lixo de mesa. Jornal do centro espírita ainda não lido embaixo do suporte do monitor. Carregador do celular. Post-its no monitor. Fita métrica da minha mãe (que também já devia estar guardada). Caixa de plástico de utensílios de manicure. Um brinco (o par dele está na cômoda atrás de mim). Caixas de som do notebook (raramente usadas). Base do telefone fixo. Teclado e mouse sem fios e um mousepad que também é um Hub USB com 4 portas. Caderno feito de folhas almaço com as anotações do que eu deveria estar fazendo agora. Caneta rosa.  ...