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Um Conto de Natal

Noite. Uma praça suja no centro de São Paulo. Em volta algumas lojas e prédios enfeitados com luzes de Natal. Largados em um banco no centro da praça, está uma família de moradores de rua.

Grace corre feliz pela praça, com seus sete anos, ainda inocente da verdadeira situação que se encontra sua família; cai, se machuca e corre para os braços de sua mãe, que, baixinho lamenta não ter mais dinheiro pra comprar remédio para o joelhinho ralado da filha tão querida. Enquanto João, também com seus sete anos, tenta, com seu lindo sorriso e uma pequena habilidade com brinquedos de equilibrar que ganhou de seus irmãos, faturar umas moedinhas para ajudar a colocar um ou dois pãezinhos franceses debaixo daquela pequena árvore que seu pai tinha enfeitado com panos velhos pra dar um colorido, uma lembrança vaga do que é o Natal... Um ou dois pãezinhos que seriam divididos entre toda a família... José Amaro, o pai, pulava de ônibus em ônibus pedindo ajuda para as pessoas, quando muito conseguia comprar umas balinhas para vender. Ninguém sabe por onde anda Estefany... ela some a noite toda, dorme durante todo o dia, e sempre traz dinheiro... seus pais nada falam, mas existe a suspeita de que ela esteja se prostituindo... Aos 23 anos, era a única lógica. Júnior  (21) e Maicon (14), todos já sabem que eles são traficantes, entregam bastante dinheiro para a família, mas não ficam com ela, estão sempre escondidos em algum beco imundo, enquanto o coração de Dona Maria da Graça se aperta mais e mais a cada sirene dos carros da polícia que ela ouve passar, procurando os filhos tão queridos dentro deles.


Noutro canto da cidade, temos outra família que também se prepara para o Natal... São os Alqualonde... uma família tradicionalíssima e muito rica. Estão todos jantando, Cecille, com a inocência dos seus seis anos, conta feliz para os pais os muitos presentes que pediu ao Papai Noel, e que claro, na noite seguinte, ganharia todos, pois havia sido uma boa garota... não havia desacatado as empregadas nenhuma vez nos últimos meses. E Alexandre não comia, engolia a comida, pois já estava atrasado para a balada que iria naquela noite, e que “pegaria” a menina virgem da escola... Por mais que seus pais pedissem pra que não corresse, não bebesse e nem se drogasse, ele não ouvia... Por que ele deveria se preocupar com isso, já que só tinha 22 anos, e estava protegido pela loucura dos adolescentes? 

E é assim que começa nossa história...

Alexandre: — Pai, mãe... tô indo!!! Não precisa me esperar não, porque eu não vou dormir em casa hoje... E eu já conheço o sermão, não precisa repetir, FUI!!!!!!!!!
Cecille: — Quando eu for grande igual o Xandi, eu também vou poder passar a noite fora de casa como ele?
Paulo: — A gente pergunta pro Papai Noel... se ele disser que sim, tudo bem...

Neste mesmo momento, chega em sua “casa” José Amaro... Cansado de tanto andar e de ouvir desaforos na rua, ainda consegue dar um beijo nos filhos pequenos e na mulher. Tira do bolso um montinho de papéis amassados e uma bolsinha cheia de moedas e entrega pra mulher... ela dá uma rápida olhada, devem ter cerca de R$ 8,00. Grace ainda chora com o machucado, e ganha algumas moedinhas que a animam e a faz, mesmo com dor, ir até o boteco da esquina comprar umas balinhas que ela divide com o irmão...
Júnior e Maicon aparecem por lá e deixam um pouco de dinheiro e comida para a amada família... E vão “trabalhar” na porta da balada dos ricos... No caminho, conversam...

Júnior: — O papai tava cansado hoje... Eu não aguento mais ver ele vivendo esta vida de cão... queria que ele tivesse novamente uma cama pra dormir... e um motivo pra sorrir...
Maicon: — Calma, mano, a gente vai conseguir... vai dar tudo certo!!!
Júnior: — Eu só vou acreditar nisso depois que eu pegar o filho da puta que fez isso com a gente... aquele maldito Paulo Alqualonde vai pagar com juros e correção monetária tudo que ele fez!!!
Maicon: O que você tem em mente, Júnior?
Júnior: Eu preciso saber onde ele mora... depois a gente vai lá dar um susto nele!!!

Os dois irmãos já estão quase chegando na balada... quando, de repente, Maicon vê sua irmã passar num carro com quatro homens... e não tinha a cara muito feliz... Ele não pensa duas vezes e corre pra salvar a irmã. Júnior viu o outro carro que vinha logo atrás em alta velocidade, mas Maicon não... ele até tentou avisar, mas já era tarde! O outro carro não conseguiu parar... e Maicon voou por cima do carro até cair desacordado do outro lado da rua... Júnior não sabia o que fazer, achava que o irmão estava morto... ele gritava, chutava o carro, fazia tudo o que podia, e enquanto isso, Alexandre, pelo celular, chamava a ambulância. E depois ligou para a seguradora do carro... onde teve que falar seu nome completo pela primeira vez... quando Júnior ouviu o sobrenome Alqualonde, enlouqueceu de vez... Gritava com toda a força de seus pulmões cansados que já não bastava o que ele havia feito com a sua família, agora tinha que matar seu irmão também... Alexandre não entendia nada o que estava acontecendo. Assustado, chamou seus pais e a polícia.

Estefany que viu tudo pela janela do carro, saltou do carro quando pararam no farol, e deixou para trás os R$ 1.500,00 que ela ganharia por aquela noite... no dia seguinte ela seria despejada do seu ponto – há tempos não pagava a propina do cafetão, mas não podia deixar seu irmão morrer naquela calçada de gente rica, esnobe e nojenta.

A polícia conseguiu segurar Júnior enquanto os paramédicos atendiam seu irmão... e constataram que o acidente não fora assim tão grave, Maicon se recuperaria bem, mas precisaria ir para o hospital... 

Júnior foi na ambulância com eles, Estefany foi buscar os pais e os irmãos, Alexandre ficou no local do acidente com sua mãe para prestar depoimentos, e o Dr. Paulo Alqualonde foi para o hospital, para garantir que o garoto fosse bem atendido e para deixar claro que todo o atendimento de Maicon seria custeado por ele, “o melhor atendimento para este garoto”, dizia e repetia Paulo, enquanto falava no celular com a mulher pra tentar entender o que estava acontecendo.

Júnior, ao chegar no hospital, foi obrigado a ser sedado, tamanho era o seu descontrole. Mas, teve a sorte de acordar a tempo de presenciar a cena mais bonita de toda a sua vida...

Quando José Amaro chega no hospital, recebe olhares de desprezo e barram toda a sua família na porta, dizendo que ele não teria atendimento ali e que procurasse um hospital público... Depois de muita confusão, segurança e pai se entenderam e a família Amaro pôde enfim entrar pra saber de seu filho... Logo na recepção, a mocinha apontou o Dr. Paulo e disse que ele quem “estaria custeando” o tratamento de Maicon Amaro. Paulo estava de costas, e, a princípio, não foi reconhecido por José. 

Mas, conforme José se aproximava, Paulo se virou em sua direção, e, de repente, os dois homens ficaram ali, parados, se entreolhando... Ameaçaram virar as costas um para o outro nem uma, nem duas vezes, mas sim várias... Mas, tinham que se encarar, afinal... um filho estava internado naquele hospital por conta do pai do outro filho... Não fosse isso, Maicon estaria sofrendo no chão de algum P.S. público...
Então, surge Júnior, abraça a mãe e assiste a cena que se desenrola na sua frente...

José:Boa noite, Dr. Paulo Alqualonde! Achei que nunca mais encontraria o senhor... ainda mais nesta situação...
Paulo: — Nossa, Dr. José... você está muito diferente!!! Eu não sabia que o garoto era seu filho, mas eu já falei com os médicos e ele está sendo muito bem cuidado.
José: — Não me chame de Doutor! Você acabou com a minha vida quando deixou aquele processo se abater sobre mim. Não sou mais médico há sete longos anos...
Paulo: — Você precisa dar um endereço pra recepcionista... pra ficha do paciente... Dr. José!
José: — Eu não tenho endereço... a não ser que ela aceite uma esquina na Praça João Mendes como endereço...
Paulo: — Como assim, uma esquina... na praça...
José: — É exatamente isso... você deixou que me tirassem tudo... emprego, carreira, casa, nome, dignidade... meus filhos pequenos dormem na rua e comem restos e lixo... Estudei anos da minha vida pra terminar criando meus filhos numa rua suja... me matando de ônibus em ônibus me humilhando pedindo dinheiro pra pessoas que estudaram muito menos do que eu e você! Mas muitas vezes se mostram melhores que nós dois fomos a vida inteira!
Paulo: — Você nunca soube o resultado daquele processo, certo, Dr. José? Pois eu vou te contar... Aquela paciente não morreu por sua culpa... Três anos depois da sua condenação, o irmão dela foi até a polícia e contou que foi tudo premeditado. Ele tentou evitar que a irmã fizesse isso, mas quando ele percebeu tudo, já era tarde demais, ela já estava na mesa de operação. A garota mentiu para nós, Dr. José... o que a família chamou de assassinato, foi dado como suicídio... ela sabia que era alérgica àquela substância anestésica, e falou que só podia tomar aquela para se suicidar... ela não tinha coragem de fazer aquilo sozinha, e nos usou para fazer por ela. Quando eu soube disso, te procurei como um louco, mas, como não te achei, eu imaginei que tivesse ido fazer a vida em outra cidade. Então, deixei pra lá, pesava que estivesse bem melhor “lá” do que aqui... Pelo visto, eu estava enganado... devia ter insistido um pouco mais!!!
José: — Quer dizer que foi suicídio??? E o meu CRM??? E agora???
Paulo: — Seus documentos estão lá em casa, todos muito bem guardados... para o dia em que eu conseguisse te reencontrar pra te devolver...

O médico que estava cuidando de Maicon aparece para dizer que o filho está bem, mas sedado, por causa da dor... Que eles fossem pra casa descansar que Maicon teria alta pela hora do almoço e poderia passar o Natal em casa, com a família. José fica um pouco aborrecido por não poder ficar ali, afinal ele teria um lugar quente e seguro para passar ao menos uma noite. Paulo percebe e sente que não pode abandonar este velho amigo novamente.

Paulo: — Vamos, Dr. José... pegue sua família e vamos pra minha casa. Lá, vocês vão tomar um banho bem quente e podem demorar o quanto quiserem, vão comer uma comida maravilhosa que eu vou mandar minhas empregadas prepararem, vão dormir numa cama bem gostosa... e seus meninos vão poder brincar com a minha pequena Cecille, enquanto nós discutiremos no escritório, fumando ótimos charutos cubanos, a sua volta á medicina!
Maria da Graça: — Nós não queremos atrapalhar... A gente fica por aqui mesmo... afinal, é só uma noite mesmo...
Alexandre: — Nada disso... eu e meu pai precisamos nos desculpar por tudo o que aconteceu... Vocês vão conosco!

E assim, sem terem mais como negar o convite, lá se foram quase todos os Amaros para a casa dos Alqualonde, onde se limparam, comeram, e sorriam... Grace e João se viram de verdade no espelho e se adoraram... brincaram feito duas crianças com Cecille e as três crianças adormeceram juntas no chão da sala quando não agüentavam mais de tanto gritar e correr.

No dia seguinte, todos descansados, foram buscar Maicon e lhe contaram toda a história... ele não acreditava... não conseguia parar de sorrir, ao saber que a família poderia ter um dia, a esperança de sair daquele buraco, daquela vida infernal que levavam...

Paulo os ajudou a comprar roupas novas, achar um lugar bom pra morar, comprou brinquedos para as crianças, comprou comida, matriculou as crianças na melhor escola... enfim, devolveu ao Dr. José Amaro tudo aquilo que ele havia tirado dele sete anos antes...

À noite na festa na casa nova de Dr. José Amaro, todos sorriam, cantavam, brindavam, comiam decentemente e abriam presentes embaixo de uma enorme árvore de natal intensamente iluminada...

Quando bateu meia-noite, as crianças correram para o lado de fora da casa para ver Papai Noel entrar pela chaminé... até os adolescentes voltaram a acreditar que naquele ano veriam o Papai Noel...

E diz a lenda que quando eles saíram, havia mesmo um trenó lotado de presentes, com renas de nariz vermelho parado bem em frente á casa... Surpreso, apareceu um velhinho gorducho, de barba branca, vestido de vermelho, rindo aquela sua famosa risada, e esvaziou todo seu trenó naquela casa... até os bichinhos de estimação ganharam presentes... não faltou ninguém... A rua toda ganhou presentes... os moradores de rua ganharam presentes... e naquele ano, toda aquela cidade enorme se lembrou da magia do Natal... Do verdadeiro significado do Natal...

E assim, termina nosso Conto de Natal... Duas famílias felizes, que acharam seu caminho de paz...

Será que neste Natal não é a hora de encontrarmos nosso caminho de paz???

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