Hey! Quem é você?
Esse quarto é meu. Saia já daqui, ou será que eu vou ter que chamar a polícia???
Ow, esse computador também é meu, não te autorizei a mexer nele! Como raios você sabe a senha dele?
Opa, pera… aí você já está abusando… quer atender meu celular, chamar de mãe a minha mãe, e de sobrinho o meu sobrinho?
Bom, tá escurecendo… agora você vai embora, né? NÃO! Na minha cama não! Droga!
Não sei por quanto tempo repeti este diálogo… dias e dias sem parar, enquanto aquele ser estranho usufruía de tudo que era meu. Mas, ele simplesmente me ignorou. Nunca na vida fui tão ignorado assim.
De vez em quando, ele até me olhava, mas não me via. Sabe? Quando a gente olha algo, mas não enxerga? Pois é… era isso que acontecia.
De repente, eu fiquei sem saber o que estava doendo mais… se era ser ignorado, não ser visto ou perder a minha identidade para alguém que pensava ser eu.
E a cada dia aquele ser piorava… Eu via calado aquela pele ficar estranha, vermelha, cheia de machucados estranhos… as roupas que eu gostava de olhar passaram a ficar escondidas atrás de mim… eu, triste, assistia elas se esconderem no armário a cada dia que passava… onde elas estão hoje? Ninguém lembra. Nem eu mesmo.
Um dia, aquela coisa sentou no chão, e me olhou. Me enxergou. Bem no fundo dos meus olhos. Por uns 10 minutos. Dez longos minutos! Uau… quanto tempo havia se passado???
Finalmente entendi.
Ela chorou.
Mas nada mudou. Havia alguma parte dali que eu não conseguia entender, que eu não conseguia acessar. Estava deformada, quebrada.
Os dias passaram. Ela piorava. Eu batia, gritava, invadia o celular dela... músicas, textos, pessoas, vídeos… nada adiantava. Ela sentia aquilo, por míseros 30 segundos, nada mais.
As palavras sumiram, eu desanimei. Eu desisti.
Eu assistia dia após dia, ela parecia morrer em vida. Dali da minha prisão, eu via ela fazer todos os dias a mesma coisa… ela buscava um caminho pra sair dali… mas ela não me olhava mais… eu tinha as palavras certas pra dizer, o olhar certo pra fazer ela acordar e sair daquela situação… mas ela não tinha coragem de olhar pra mim. Acho que ela tinha medo do que estava acontecendo, ela realmente se sentia um monstro!
As tais selfies diminuíram… até deixarem de existir.
Se ela precisava sair de casa, entrava em um dilema… encarar o monstro, ou tentar esconder? Ela não sabia o que era aquilo, não sabia se a maquiagem de esconder poderia causar algum mal. Mas ela não se importava mais… e na maioria das vezes, ela tentava esconder. Mas não dava. Ele sempre dava um jeito de aparecer. Sempre.
Ela começou a desistir de esconder. E tudo piorou.
Um dia, ela recebeu uma proposta ultimato da mãe… ela tinha que mudar. E mudou. Precisou encarar o mundo do lado de fora.
Finalmente.
Ufa.
A luz do sol fez bem à ela.
Aos poucos, eu comecei a reconhecer aquela menina… Ela foi obrigada a voltar a me encarar, e eu consegui fazer ela me ouvir. Ela foi, enfim, descobrir o que estava acontecendo! A resposta não foi satisfatória, mas foi uma resposta.
Esses dias eu consegui matar mais uma parte dele… Foi engraçado ver ele se desesperando, tentando se agarrar a qualquer detalhe branco que poderia aparecer… mas não deu. Sumiu.
Ela voltou a se reconhecer. Ela voltou a me ouvir!
Ela ainda briga com o monstro. O monstro ainda tem forças… muita força. Eu ainda busco a melhor arma contra ele. Você que está lendo (será que tem alguém lendo?), conhece alguma arma infalível contra um monstro que está dentro de alguém???
Assinado: Reflexo.

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