"Os olhos são a janela da alma e o espelho do mundo." (Leonardo da Vinci)
Eu tinha medo de olhar direto nos olhos dele…
Lembrava daquele ditado que dizia que os olhos são a janela da alma…
Se aqueles olhares se cruzassem, será que ele perceberia o que se passava na minha mente?
Eu tinha medo de ler a alma dele também. E o medo de enxergar o que eu queria? Ou o que eu não queria?
Era melhor disfarçar e evitar.
Ele tem partes melhores para serem admiradas…
Quando eu estava sozinha, olhava pro espelho… e sabia… qualquer coisa que eu lesse naqueles olhos, seria a minha própria mente me enganando… Aquele Deus Grego jamais olharia pra mim como eu olho pra ele. Ele tinha uma fila de mulheres perfeitas esperando uma única chance… o que eu tinha pra oferecer? Nada.
Um dia, nossas mãos se tocaram. No outro, nossos dedos se entrelaçaram. Mais um dia e nossos corpos se aproximaram. E os olhos se cruzaram. Meu corpo estremeceu e o medo fez com que eu fugisse. Não tive tempo de enxergar nada. Nada que eu já não tivesse enxergado em minha mente antes desse momento…
Eu sabia que minha mente me pregava peças… a vida toda criei situações que não existiam. Quando era adolescente, eu tinha certeza que aquela pessoa me adorava, e que ia me beijar naquela festa de aniversário que esperamos meses… E de repente, ele apareceu de mãos dadas com uma outra que nunca vimos… e aí tudo fez sentido… em todas as nossas conversas nunca fui eu, ele só me contava da amiga da escola, eu que não enxerguei… depois dessa, nunca mais acreditei em um aperto de mãos sequer.
Uns anos depois, já mais velha, eu podia jurar que uma garota não gostava de mim… tinha a impressão que ela me olhava com cara feia o tempo todo… eu não tinha feito nada pra ela… e isso me intrigava mais… Mas, tudo bem… nem Jesus agradou a todos, por que eu agradaria?
Passou um tempo, eu descobri que o que eu pensava que era ranço era miopia! Ela estava sempre sem óculos quando conversávamos!!! E eu já tinha toda uma história do motivo dela me odiar na cabeça!!!
Mas por mais que eu tente, não controlo meus pensamentos… E lá estava eu, mais uma vez, fugindo das histórias que eu inventava. Fugindo dos olhares que só eu via. Desviando dos sorrisos que não eram pra mim. E ao mesmo tempo, decifrava mensagens que não existiam em conversas por aplicativos de celular. Pensando com cuidado nas minhas próprias mensagens, para que elas não me entregassem. Entregar o quê, sendo que nem eu tenho certeza do que entregar?
E foi em uma madrugada quente… eu estava acordada, em casa, com uma cerveja gelada, sentada na varanda, olhando a paisagem, fone de ouvido na orelha, e música no último volume… postei uma foto na rede social… ele interagiu. Ah, pelo visto eu não era a única com insônia… Devolvi a interação. E o tédio fez com que ele me chamasse pra conversar. Uma conversa boba, sem propósito, só pra passar o tempo mesmo… foi o que eu pensei.
Falamos sobre o tempo quente, o tédio, a insônia… E do nada, ele sugeriu vir me ver, e conversar pessoalmente. "Cansei de digitar", ele disse.
Fechei os olhos, e veio em meu nariz o cheiro do perfume dele… eu não tinha nada a perder… Vem.
E lógico, fui trocar o pijama e passar um perfume também, né?
Ele chegou. Eu desci. Estava quente (já disse, né?)... Sentamos em um banco afastado do meu prédio… e continuamos conversando sobre a vida… eu queria olhar nos olhos dele, mas não conseguia. Só olhava pra boca dele, tinha um encanto naqueles lábios, um brilho que eu só via… Mas eu estava sonhando… de novo. E o cheiro dele invadia meu ar… E aquela boca me chamando… Senti os dedos dele tocarem levemente meu braço… Naquele ambiente seguro, naquela hora mágica, ninguém via a gente, nem saberia daquele encontro… Não, gritei pra minha mente, pra ela parar, pelo amor dos bichinhos fofos do universo, de inventar coisas que não existem…
De repente, eu acordei do sonho e percebi que o cheiro do perfume dele tinha diminuído… e um outro cheiro invadia o ar que estava entre a gente… Eu conhecia aquele cheiro, e trouxe junto dele… Chuva! Mas não uma simples chuva, uma tempestade!!! E tivemos que correr para um lugar coberto… corremos pra dentro do prédio, no salão de jogos escuro…
Rimos bastante, sentamos no chão, encostamos na parede, e estávamos lado a lado… me senti uma adolescente de novo… há quantos anos não estava assim, sentada no chão, em um lugar escuro, como se escondida, e rindo?
No escuro, me senti segura para olhar nos olhos dele… e o silêncio se fez naquele momento. Sei lá, rimos tanto que perdemos o fôlego pra falar… e eu ali, no momento que mais temi… em silêncio, fitando os olhos dele, e ele os meus… percebi minha respiração falhar e voltar descompassada… Queria fugir, mas pra onde? Sentia que eu havia sido descoberta, tantos meses me escondendo, pra ele me enxergar à meia luz e com a chuva como trilha sonora…
Respirei fundo e acabei com aquilo, fechei os olhos. Senti a mão dele no meu rosto, me acariciando, devagar… minha respiração me traiu de novo. Abri os olhos, aquela boca encantada estava tão perto… e tocou os meus lábios… senti os braços dele me puxarem pra perto… eu já não sentia meu corpo..
A chuva passou, o calor voltou… o sol mandou o escuro embora. Nos despedimos. Nossos olhos conversaram de verdade pela primeira vez. E talvez a única.

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